Levantamento identificou movimentações anormais no sistema, como um cartão usado mais de 200 vezes em um único dia e outro que passou por sete bairros em menos de uma hora, com 18 registros em 58 minutos
Foto: Rafael Catarcione/Prefeitura do RioUm levantamento feito pelo sistema digital de bilhetagem Jaé apontou fortes indícios de fraudes no uso de gratuidades no transporte público municipal do Rio de Janeiro. O monitoramento, obtido pelo RJ2, da TV Globo, revelou que alguns cartões chegaram a ser utilizados dezenas ou até centenas de vezes em apenas um dia, sugerindo clonagem ou compartilhamento irregular dos benefícios.
De acordo com os dados, um cartão de estudante universitário foi registrado 261 vezes em um único dia, 12 de setembro. Nos dias seguintes, o mesmo cartão foi usado 155 e 71 vezes, respectivamente. Outro caso envolve um passageiro com gratuidade por motivo de saúde, cujo cartão foi passado 20 vezes em um dia, e posteriormente 58 e 24 vezes. Já um cartão de idoso teve 94 utilizações em um dia e 71 no seguinte.
Além do número elevado de passagens, o intervalo curto entre os usos também chamou atenção. Um cartão de gratuidade foi validado 10 vezes seguidas em apenas 56 minutos, em cinco ônibus da linha 315. Em outro caso, um estudante usou o benefício seis vezes em menos de uma hora, em três linhas diferentes.
Um episódio particularmente curioso envolveu um cartão universitário que percorreu sete bairros em menos de uma hora, com 18 registros em 58 minutos, passando por regiões como Centro, Rio das Pedras, Pedra de Guaratiba, Barra da Tijuca, Vasco da Gama, São Cristóvão e Jacarepaguá — um trajeto que, segundo técnicos, é impossível de ser feito fisicamente, o que reforça a suspeita de clonagem.
Diante desses indícios, os consórcios que operam os ônibus na cidade cobraram ações mais efetivas da Prefeitura para coibir o uso irregular das gratuidades.
A Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) informou que a detecção dessas irregularidades só foi possível com o novo sistema digital de bilhetagem. Segundo a pasta, práticas semelhantes já aconteciam no modelo anterior, mas sem mecanismos eficientes de rastreamento e transparência.
Desde a implantação do Jaé, cerca de 6,8 mil gratuidades foram bloqueadas por suspeita de uso indevido. A Secretaria reforça que os cartões são pessoais e intransferíveis, e orienta usuários que tiveram bloqueios a procurar os canais oficiais do Jaé ou postos de atendimento presencial para regularizar a situação.
Aplicativo ainda apresenta falhas
Apesar da modernização do sistema, usuários continuam relatando falhas e instabilidades no aplicativo do Jaé, como o desaparecimento temporário de saldos e dificuldades para fazer login, mesmo após reinstalar o app. Em alguns casos, o sistema chega a não reconhecer o CPF ou a biometria do usuário antes de voltar a funcionar normalmente.
O sistema completou três meses de operação obrigatória, substituindo o antigo modelo de bilhetagem nos transportes municipais do Rio.
Apesar da modernização do sistema, usuários continuam relatando falhas e instabilidades no aplicativo do Jaé, como o desaparecimento temporário de saldos e dificuldades para fazer login, mesmo após reinstalar o app. Em alguns casos, o sistema chega a não reconhecer o CPF ou a biometria do usuário antes de voltar a funcionar normalmente.
O sistema completou três meses de operação obrigatória, substituindo o antigo modelo de bilhetagem nos transportes municipais do Rio.
Biometria facial no transporte intermunicipal
As irregularidades não se limitam ao transporte municipal. A Secretaria Estadual de Transportes registrou mais de 2,5 milhões de tentativas de uso indevido do Bilhete Único Intermunicipal apenas em 2025.
Como resposta, o governo estadual iniciou a instalação de equipamentos de biometria facial no metrô, com a Central do Brasil sendo a primeira estação a receber a tecnologia. O sistema será expandido para todas as estações e já funciona em vans, ônibus intermunicipais e, desde outubro, em fase de testes nas barcas.
Neste ano, mais de 85 mil cartões intermunicipais foram bloqueados ou cancelados por uso indevido, segundo a Secretaria Estadual de Transportes.
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