O Louvre busca reforçar suas receitas a qualquer custo. O icônico museu vai aumentar em 45% o preço do ingresso para visitantes de fora da Europa em 2026. A partir de 14 de janeiro, os visitantes que não pertencem ao Espaço Econômico Europeu (EEE), que inclui União Europeia, Islândia, Liechtenstein e Noruega, terão de pagar € 32 para percorrer os 73 mil m² do museu, € 10 a mais do que o valor atual. Questionada pela RFI, a assessoria admitiu que a entrada que dá acesso às alas terá controle de documentos.
A decisão foi aprovada pelo conselho de administração do Louvre e tem como objetivo "reforçar a receita do museu", que é um dos mais visitados do mundo.

A partir de 14 de janeiro, os visitantes que não pertencem ao Espaço Econômico Europeu (EEE), que inclui União Europeia, Islândia, Liechtenstein e Noruega, terão de pagar 32 euros para percorrer os 73 mil m² do museu
Foto: AFP - SEBASTIEN DUPUY / RFI
Procurada pela RFI, a assessoria de imprensa do museu afirmou não haver porta-vozes do museu autorizados a se pronunciarem sobre o assunto e que não haverá entrevistas sobre o tema. A assessoria lembrou ainda que a decisão se estende a outros locais muito visitados, dentro e fora da capital francesa, como os Castelos de Versalhes e o de Chambord, além da Saint-Chapelle em Paris, e que quaisquer outras questões poderiam ser endereçadas diretamente "ao Ministério da Cultura" da França.
O curador alemão e diretor da Pinacoteca de São Paulo, Jochen Volz, comentou a decisão do museu mais visitado do mundo. "A questão dos valores cobrados como ingresso para museus é sempre uma discussão muito delicada. É importante analisá-la em conjunto com as políticas de gratuidade, meia-entrada e parcerias. Na Pinacoteca de São Paulo, por exemplo, aproximadamente 78% do público entra se beneficiando de gratuidade. Ainda assim, a bilheteria é, para nós e para todos os museus, uma fonte de receita importante", analisou.
"Entendo que o Louvre, pelo que se espera, terá um aumento de aproximadamente € 17,5 milhões por ano. Esse é um valor significativo para a manutenção do museu e para a gestão de seus acervos. Cobrar um valor diferenciado para turistas é uma forma de se beneficiar da fama do Louvre como destino. Ao mesmo tempo em que se preserva um certo nível de acessibilidade para usuários frequentes locais, estudiosos, estudantes e públicos regionais, que potencialmente visitam o museu com uma frequência muito maior", sublinhou Volz.
Quem vai pagar mais caro?
Os principais grupos de visitantes estrangeiros que deverão pagar mais caro a entrada no Louvre incluem os norte-americanos, que formam o maior contingente, seguidos pelos chineses, que ocupam a terceira posição. Os brasileiros aparecem em sétimo lugar entre os visitantes extra-europeus e também serão impactados pelo aumento.
A sindicalista francesa Nathalie Ramos foi uma das principais vozes denunciando as condições precárias de trabalho e a falta de respostas satisfatórias da direção do museu e das autoridades, durante a recente greve no Louvre. No caso do aumento do preço dos ingressos, ela denunciou uma política "discriminatória" e que "fere princípios de acesso e universalismo cultural", atingindo ainda mais a imagem do museu. "A imagem do Louvre não é muito gloriosa no momento... Entre essa ideia que queremos dar do maior museu do mundo que quer implantar projetos gigantescos e a realidade dos meios dos quais dispomos, existe um enorme abismo", disse.
O galerista Philippe Mendes, um dos mais influentes de Paris e administrador de uma sala própria destinada a obras portuguesas no Louvre, comenta a tentativa institucional da gestora, Laurence des Cars, de salvar o projeto do museu para 2030. "O museu está em uma situação claramente muito tensa. Acho que o ambiente interno não é nada bom, porque, de fato, o que aconteceu [o roubo espetacular, seguido de greve] foi muito grave, e quando há algo grave assim, espera-se sempre que algumas responsabilidades sejam apuradas", disse à RFI.
"Além disso, o Ministério da Cultura nomeou um homem para gerir completamente o Louvre. Ele não é militar, mas trabalhou para o Ministério da Defesa e nas obras da catedral de Notre-Dame, inclusive durante todo o atual restauro. Portanto, isso também é um sinal muito forte de que [a presidente da instituição] Laurence des Cars precisa ser mantida onde está, porque, caso contrário, não faz sentido. Para não deixá-la de fora, encontraram alguém que agora vai gerir profundamente e tentar reestruturar o Louvre, uma espécie de tutela para dar continuidade a esse grande projeto, que é o projeto 2030", reforça.
A artista Laura Lima, um dos nomes brasileiros mais proeminentes das artes visuais no mundo e atualmente em cartaz no Instituto de Artes Contemporâneas de Londres (ICA), tem uma opinião clara sobre o assunto. "Todos os museus deviam ser como as praças públicas, abertas para todo e qualquer tipo de pessoa e origem", declarou Lima, que, ao lado de Ernesto Neto e Márcio Bottner, é uma das fundadoras da galeria Gentil Carioca, no Rio de Janeiro.
Pesquisadora em cinema e acostumada a visitar museus em várias partes do globo, a brasileira Luíza Alvim lembrou que o Louvre não é um caso isolado na cobrança de ingressos diferenciados para estrangeiros. "Eu viajo por diversos lugares do mundo, e essa diferenciação de preço não é exclusiva do que está se tentando fazer no Louvre. Isso existiu e existe na Costa Rica, no Egito, mas acho extremamente problemático pelo seguinte: essa diferenciação, embora proteja de certa forma o cidadão do país — que pode ter um acesso mais fácil —, prejudica pessoas de países que são mais pobres, cujos cidadãos também são pobres", disse.
"Isso já é problemático porque, por exemplo, no caso da Costa Rica, nós somos latino-americanos e não adianta falar com eles: nós também somos latino-americanos, também somos pobres. Recebemos em uma moeda fraca e pagamos o mesmo preço de quem recebe em uma moeda forte. De quem recebe em euro ou em dólar. E o mais absurdo da situação que se está tentando implementar no Louvre é que um país de moeda forte está tentando proteger pessoas que recebem em moeda forte e prejudicar pessoas que recebem em moeda fraca", completou Alvim.
O Louvre continua sendo um dos museus mais visitados do mundo, com quase 9 milhões de visitantes em 2024, e os visitantes estrangeiros representam a maioria das entradas, variando entre 69% e 77% do total.
Controle de passaportes no museu mais visitado do mundo?
Em nome do "universalismo" do Louvre e do "acesso igualitário" às suas coleções, os sindicatos criticaram unanimemente o aumento do preço do ingresso para não europeus. "O argumento de que a reforma do prédio justifica o fim de dois séculos de universalismo no Louvre não nos convence", afirmou o sindicato SUD.
Segundo a CGT, essa nova tabela de preços fará com que os residentes fora do EEE "paguem caro, consolidando o desengajamento do Estado, para visitar um museu em condições precárias". "O público afetado verá isso como uma forma de discriminação", afirmou Valérie Baud, delegada da CFDT.
As organizações sindicais, que já denunciam regularmente problemas de falta de pessoal, também se preocupam com a carga adicional que essa tabela vai gerar para os funcionários, que serão responsáveis por verificar a nacionalidade dos visitantes. "Não esquecemos o aumento de trabalho que isso vai gerar para as equipes", alertou o SUD.
Acesso a alas do museu terá verificação de documentos
Contactado pela RFI para esta reportagem, a assessoria de imprensa do Museu do Louvre detalhou que "os visitantes que se enquadrarem na tarifa do espaço econômico europeu (EEE) poderão ser verificados nos acessos externos e na entrada das alas Denon, Sully e Richelieu". No Louvre, a ala Denon abriga obras mundialmente famosas, como a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix, e A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David, além de importantes coleções de pinturas italianas e francesas do século 16 ao 19.
A ala Sully concentra as antiguidades egípcias, com sarcófagos, múmias e esculturas, além de peças do Oriente Próximo, esculturas gregas e romanas, como a Vênus de Milo, e coleções medievais e renascentistas francesas. Já a ala Richelieu apresenta esculturas francesas dos séculos 17 e 18, coleções do Oriente Próximo, os apartamentos históricos do palácio e uma variedade de moedas, medalhas e objetos de artes decorativas.
Os cidadãos do EEE deverão apresentar um documento de identidade válido com foto, como carteira de identidade, passaporte ou carteira de motorista. Os residentes do EEE deverão apresentar um documento de identidade e de residência de longa duração válido com foto, como visto com validade superior a três meses ou cartão de residência.
https://www.terra.com.br/noticias/mundo/europa/museu-mais-visitado-do-mundo-louvre-cria-tarifa-mais-cara-para-nao-europeus-e-vai-verificar-documentos,317a846847507ac83dd86bd2c7ba2fd6g5jljnae.html?utm_source=clipboard
A artista Laura Lima, um dos nomes brasileiros mais proeminentes das artes visuais no mundo e atualmente em cartaz no Instituto de Artes Contemporâneas de Londres (ICA), tem uma opinião clara sobre o assunto. "Todos os museus deviam ser como as praças públicas, abertas para todo e qualquer tipo de pessoa e origem", declarou Lima, que, ao lado de Ernesto Neto e Márcio Bottner, é uma das fundadoras da galeria Gentil Carioca, no Rio de Janeiro.
Pesquisadora em cinema e acostumada a visitar museus em várias partes do globo, a brasileira Luíza Alvim lembrou que o Louvre não é um caso isolado na cobrança de ingressos diferenciados para estrangeiros. "Eu viajo por diversos lugares do mundo, e essa diferenciação de preço não é exclusiva do que está se tentando fazer no Louvre. Isso existiu e existe na Costa Rica, no Egito, mas acho extremamente problemático pelo seguinte: essa diferenciação, embora proteja de certa forma o cidadão do país — que pode ter um acesso mais fácil —, prejudica pessoas de países que são mais pobres, cujos cidadãos também são pobres", disse.
"Isso já é problemático porque, por exemplo, no caso da Costa Rica, nós somos latino-americanos e não adianta falar com eles: nós também somos latino-americanos, também somos pobres. Recebemos em uma moeda fraca e pagamos o mesmo preço de quem recebe em uma moeda forte. De quem recebe em euro ou em dólar. E o mais absurdo da situação que se está tentando implementar no Louvre é que um país de moeda forte está tentando proteger pessoas que recebem em moeda forte e prejudicar pessoas que recebem em moeda fraca", completou Alvim.
O Louvre continua sendo um dos museus mais visitados do mundo, com quase 9 milhões de visitantes em 2024, e os visitantes estrangeiros representam a maioria das entradas, variando entre 69% e 77% do total.
Controle de passaportes no museu mais visitado do mundo?
Em nome do "universalismo" do Louvre e do "acesso igualitário" às suas coleções, os sindicatos criticaram unanimemente o aumento do preço do ingresso para não europeus. "O argumento de que a reforma do prédio justifica o fim de dois séculos de universalismo no Louvre não nos convence", afirmou o sindicato SUD.
Segundo a CGT, essa nova tabela de preços fará com que os residentes fora do EEE "paguem caro, consolidando o desengajamento do Estado, para visitar um museu em condições precárias". "O público afetado verá isso como uma forma de discriminação", afirmou Valérie Baud, delegada da CFDT.
As organizações sindicais, que já denunciam regularmente problemas de falta de pessoal, também se preocupam com a carga adicional que essa tabela vai gerar para os funcionários, que serão responsáveis por verificar a nacionalidade dos visitantes. "Não esquecemos o aumento de trabalho que isso vai gerar para as equipes", alertou o SUD.
Acesso a alas do museu terá verificação de documentos
Contactado pela RFI para esta reportagem, a assessoria de imprensa do Museu do Louvre detalhou que "os visitantes que se enquadrarem na tarifa do espaço econômico europeu (EEE) poderão ser verificados nos acessos externos e na entrada das alas Denon, Sully e Richelieu". No Louvre, a ala Denon abriga obras mundialmente famosas, como a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix, e A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David, além de importantes coleções de pinturas italianas e francesas do século 16 ao 19.
A ala Sully concentra as antiguidades egípcias, com sarcófagos, múmias e esculturas, além de peças do Oriente Próximo, esculturas gregas e romanas, como a Vênus de Milo, e coleções medievais e renascentistas francesas. Já a ala Richelieu apresenta esculturas francesas dos séculos 17 e 18, coleções do Oriente Próximo, os apartamentos históricos do palácio e uma variedade de moedas, medalhas e objetos de artes decorativas.
Os cidadãos do EEE deverão apresentar um documento de identidade válido com foto, como carteira de identidade, passaporte ou carteira de motorista. Os residentes do EEE deverão apresentar um documento de identidade e de residência de longa duração válido com foto, como visto com validade superior a três meses ou cartão de residência.
https://www.terra.com.br/noticias/mundo/europa/museu-mais-visitado-do-mundo-louvre-cria-tarifa-mais-cara-para-nao-europeus-e-vai-verificar-documentos,317a846847507ac83dd86bd2c7ba2fd6g5jljnae.html?utm_source=clipboard
