Silvio Persivo
(*)
O
biólogo chileno Humberto Maturana, em parceria com seu compatriota Francisco
Varela, formulou uma das mais influentes teorias contemporâneas sobre a vida: a
autopoiese. O termo- derivado do grego auto (por si mesmo) e poiesis
(criação)-busca responder a uma questão fundamental: o que é um ser vivo?
A
resposta proposta é elegante e radical. Todo ser vivo seria um sistema
fechado que se autoproduz continuamente, mantendo-se, reparando-se e
transformando-se ao longo do tempo. Viver, nesse sentido, não é apenas existir,
mas persistir como organização ativa, em constante recriação de si.
A
partir dessa formulação, Maturana e Varela avançam um passo decisivo: estabelecem
uma equivalência entre vida e cognição. Conhecer não seria uma atividade
exclusiva da mente humana, mas uma propriedade intrínseca ao próprio viver. O
ser vivo, ao interagir com o ambiente, não apenas reage -ele conhece ao
viver.
Contudo,
essa dinâmica não ocorre no vazio. Todo organismo existe em acoplamento
estrutural com seu meio, modificando-o e sendo por ele modificado. Essa relação
de interdependência sustenta a continuidade da vida até seu limite inevitável:
a morte, quando a organização deixa de se conservar.
Tradicionalmente,
a cognição foi compreendida como atividade consciente, simbólica e reflexiva —
uma faculdade mental associada a sujeitos autônomos. Nesse paradigma, os
organismos distinguem-se das máquinas porque, como observa a literatura,
“enquanto as funções de controle das máquinas são inseridas por projetistas
humanos, os organismos governam a si próprios”.
Esse
quadro, entretanto, torna-se mais complexo com o advento da inteligência
artificial. Surge uma forma distinta de cognição que, ao se integrar à vida
humana, reconfigura o próprio campo do conhecer. Hoje, já não é possível
sustentar que a cognição seja exclusividade humana. Máquinas processam
informação, aprendem padrões, adaptam respostas e antecipam cenários com
uma eficiência que dispensa experiência direta.
Diante
disso, torna-se necessário reconhecer ao menos duas modalidades: uma cognição
biológica e uma cognição maquínica. Essa distinção, porém, não é
estática. Ao contrário, ela transforma o próprio ambiente em que ocorre,
inaugurando uma nova forma de simbiose- não apenas biológica, mas também relacional,
cognitiva e informacional. Com a internet, consolida-se um ecossistema
híbrido, no qual sistemas, funções cognitivas e fluxos de informação se acoplam
de maneira inédita.
Estamos,
assim, diante de uma inflexão histórica: a tecnologia deixa de ser mera
externalidade e passa a integrar os próprios processos do conhecer. Não se
trata de ruptura ou substituição, mas de continuidade - uma nova etapa na longa
trajetória humana de construção de ferramentas, agora penetrando o núcleo da
cognição.
Este
cenário impõe uma distinção crucial: cognição não é consciência. E, mais
ainda, talvez não seja sequer sinônimo de vida. Se a cognição pode ultrapassar
os limites da biologia, o que, afinal, permanece como diferencial do vivo?
Alguns
biólogos e filósofos apontam três pilares que as máquinas ainda não preenchem
plenamente:
1. Teleologia
intrínseca vs. Extrínseca
Máquinas operam segundo finalidades externas- objetivos definidos por programadores
ou funções de otimização. Já os seres vivos possuem uma finalidade intrínseca: persistir
enquanto vida.
Não executam um propósito
dado; são, em si, o próprio esforço de continuar existindo frente à entropia.
2. Metabolismo
e termodinâmica
A vida não é apenas processamento de informação, mas de energia e matéria.
·
Máquinas processam dados para gerar
saídas.
·
Seres vivos processam energia para manter
sua organização longe do equilíbrio termodinâmico.
3. Vulnerabilidade
radical
Para uma máquina, a “morte” pode ser reversível -um desligamento, uma perda de
dados recuperável. Para o ser vivo, ela é a dissolução irreversível da
organização. A cognição biológica evolui sob a pressão da finitude, orientada
pela evitação do sofrimento e da extinção. A cognição artificial pode simular
tais estados, mas não os experimenta como ameaça existencial.
Diante
dessas distinções, talvez o ponto mais sensível da discussão resida em outro
conceito: a senciência. Diferentemente da cognição, que pode ser
funcional e abstrata, a senciência refere-se à capacidade de ter
experiências subjetivas- sentir dor, prazer, sofrimento, bem-estar.
Sob
esta perspectiva, o diferencial do vivo não seria simplesmente conhecer, mas sentir
o que conhece. É o que permite distinguir entre saber “o que é” algo e
saber “como é” vivê-lo. Uma inteligência artificial pode reconhecer uma banana
por meio de bilhões de parâmetros, mas não sabe qual é o seu gosto, pois
não possui um corpo inserido em um metabolismo que dê sentido a esta
experiência. Esta linha de reflexão
aproxima-se de autores que colocam a experiência subjetiva no centro da questão
da vida e da mente, como Thomas Nagel e David Chalmers, para os quais há algo
irredutível na perspectiva interna dos seres conscientes.
Talvez,
então, o equívoco não esteja em reconhecer a cognição como propriedade ampla,
mas em equipará-la integralmente à vida. Se a cognição pode ser
replicada-ao menos em parte-por sistemas artificiais, a senciência ainda
permanece como fronteira. No fim, esta reflexão não pretende encerrar a
questão, mas ampliá-la. Afinal, quanto mais avançamos no entendimento da vida,
mais ela parece escapar às definições rígidas.
Como
sintetizou o filósofo Søren Kierkegaard:
“A
vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada.”
(*)
Economista, poeta e filosofo bissexto.
