Silvio Persivo (*)
Meu ilustre amigo Luiz Carlos Marques- pernambucano de naturalidade, paraense do Rio de Janeiro em essência e que nunca esqueceu Rondônia - me acompanha há muito tempo. Já esteve comigo em bienais no Rio, em lançamentos de livros e, numa ocasião especial, até patrocinou a noite de autógrafos de um dos meus primeiros títulos. Foi com esse carinho de sempre que ele me enviou a tirinha que ilustra esta crônica. Uma gentileza que, devo confessar, veio carregada de provocação.
Tenho mais de 50 livros escritos. Alguns, confesso, nem sei mais onde andam - perdidos entre arquivos, papéis e cadernos que tenho me esforçado para recuperar. Faço isso por considerar que retratam épocas, assuntos e, principalmente, pessoas queridas. No ano passado, um outro amigo- desses que fogem dos holofotes- insistiu para que eu organizasse uma edição limitada reunindo as poesias que eu mais gosto. Não foi bem o que fiz. Em vez disso, escolhi aquelas que as pessoas mais gostaram. O resultado é o livro "A Idade da Palavra (Antologia da Resistência)", que lançarei no próximo mês em Fortaleza. E resistência, aqui, é exatamente isto: continuar escrevendo, insistir em fazer poesia- essa que é uma das mais belas e a mais inútil de todas as artes.
Foi nesse calo que a gentileza de Luiz Carlos Marques tocou. Dizer que no Brasil ninguém lê me parece uma simplificação- quase uma mistificação - de uma realidade muito mais complexa. É uma ideia alimentada por dados reais, sim: pelo custo elevado dos livros, por barreiras estruturais imensas que limitam o acesso à leitura para a maior parte da população. E parece correta quando a 6ª edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada no fim de 2024 pelo Instituto Pró-Livro, revela que, pela primeira vez, o número de não-leitores (53%) superou o de leitores no país, com uma redução de 6,7 milhões de leitores nos últimos anos.
Há uma relação direta disso com a queda da qualidade da nossa educação. O declínio da escola como espaço de incentivo à leitura é flagrante: em 2007, 35% dos leitores apontavam a sala de aula como o principal local de leitura; em 2024, esse número despencou para apenas 19%. Some-se a isso o fato de que o livro é um item de consumo caro para a média da população brasileira e que as mudanças tecnológicas- expansão dos computadores, smartphones, redes sociais e plataformas de streaming- transformaram as pessoas em vorazes consumidores de tela. Até mesmo os estudantes de hoje são devoradores de imagens.
Mas é exatamente aí que o cenário se complexifica. Os fenômenos dos Booktokers (no TikTok) e Booktubers (no YouTube) arrastam multidões de jovens para a leitura. Campanhas de leitura coletiva e clubes de assinatura de livros nunca estiveram tão fortes. Eventos como a Bienal do Livro de São Paulo, a do Rio de Janeiro e feiras literárias regionais - como a FLIP, em Paraty- batem recordes de público, atraindo milhares de jovens ávidos por autógrafos e novos títulos. Há ainda saraus, coletivos de poesia e publicações independentes pipocando não só nas grandes cidades, mas também nas médias e pequenas, provando que a literatura segue sendo uma ferramenta poderosa de identidade e resistência social.
A questão, portanto, não se limita a comparar números: o Canadá tem média de 14 livros por habitante ao ano; os EUA, 12; a França, entre 7 e 10; a China, cerca de 8; o Japão, entre 5 e 6; a Argentina, entre 4,5 e 5. O Brasil fica na faixa de 4 a 5 livros por ano. O problema maior é que a leitura no país ainda depende demais do acesso-seja ele econômico, geográfico ou educacional. E, mais grave ainda: ler não é apenas decodificar letras; é interpretar, extrair sentido e assimilar conhecimento. É exatamente aqui que reside o maior gargalo estrutural do Brasil, escancarado pelas avaliações educacionais padronizadas e pela disparidade evidente do nosso sistema de ensino.
Vejo no meu blog de tradução de poesias, o Viva a Poesia (https://serpoeta.blogspot.com/), um acesso mensal que varia entre 150 mil e 250 mil visitas- a maior parte de brasileiros. Ou seja, lê-se muito mais nas telas hoje do que se imagina. Por isso, sou profundamente otimista em relação ao futuro. Uma hora-só não sei quando- há de se fazer educação de verdade neste país, e os índices de leitura serão muito melhores. Mas volto a dizer: a verdade é que o brasileiro lê muito, e lê muito mais hoje do que no passado.
(*) É Doutor em Desenvolvimento Sócio-Econômico pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia da UFPª.
