Hoje vou falar a respeito de um extraterrestre. Não dos que pousam em Roswell com grande alarde de luzes - esses são amadores. Os verdadeiros extraterrestres, os que merecem esse nome, são muito mais discretos: vestem calça comum, frequentam bares comuns e, no caso deste em particular, cometem o excesso de afirmar que nasceram no Areal.
Mentira, naturalmente. Nenhum ser nascido neste planeta apresenta tais credenciais.
Desde menino, já dava mostras de sua origem cósmica: era aquele tipo de moleque atrevido que, antes mesmo de aprender a amarrar os cadarços, já era eleito- não me recordo se prefeito ou governador, mas os cargos são igualmente absurdos para quem ainda cheira a leite. E agora, para completar a farsa, compõe músicas e escreve poemas, como se a arte fosse passaporte suficiente para passar por humano. A mim, não engana. Um alienígena que faz poesia? É a prova cabal de que veio de um planeta onde a estupidez ainda não foi inventada.
Mas a evidência definitiva -aquela que derruba qualquer cético- chama-se Irene. Uma japonesa de cultura impecável, postura irrepreensível, elegância que dispensa comentários. Agora, peço licença para raciocinar: como é possível que um sujeito que alega ter saído do Areal convença uma dama protegida pela espada samurai de Dona Fuzako a trocar o ar do Oriente pelo seu? Por correspondência? Telepatia? Os antropólogos que se expliquem. A resposta, meus senhores, é simples e aterradora: ele a abduziu. Subiu-a numa nave, aplicou-lhe algum tratamento mental que a ciência terrestre ainda não catalogou, e pronto — a mulher, até hoje, olha para aquele ser de cem quilos e vê o Brad Pitt.
Repito, para que não haja dúvida: Brad Pitt.
E se alguém tiver a ousadia de questionar a devoção dela, Irene responderá, com a convicção inabalável dos fiéis, que ele — tirante uma cervejinha aqui e acolá — seria o próprio Jesus Cristo reencarnado. Uma mulher que transforma um bebedor de cerveja em messias: isso não é amor, é hipnose interestelar.
E agora, o golpe de misericórdia: esta criatura- não sei se de Deus ou dos deuses, provavelmente de nenhum dos dois - tem a coragem de afirmar que faz 68 anos. Sessenta e oito! Como se não parecesse. E ainda se move com a desenvoltura de um bailarino, ainda que um bailarino de cem quilos, é certo, mas bailarino. Os humanos, aos 68 anos, gemem para subir escadas. Ele desfila.
Enfim, como se trata do nosso extraterrestre- o único que a Terra tem a gentileza de nos emprestar-, festejemos.
Feliz aniversário, seu Dadá. Que as conquistas, as alegrias e a felicidade o acompanhem por, pelo menos, mais cem anos. E se quiser usar sua tecnologia alienígena para que eu possa assistir às suas vitórias através dos tempos, confesso: não vou achar ruim.
Muitas felicidades!
