Que a vida era diferente no passado não há dúvida nenhuma. Começa pelo fato de que, antes, havia muito mais liberdade para tudo. Quem estudou o passado sabe que as festas, as grandes comemorações, o entretenimento de uma forma geral não representavam grandes lucros para quem quer que fosse. Hoje, a maior parte do tempo livre é monetizada: as pessoas gastam suas horas navegando na internet-saturada de anúncios-ou maratonando séries na Netflix. Até pagam para jogar videogame ou apostar em cassinos on-line. Quando me entendi de gente, já existia o rádio, e com programas como Jerônimo, o Herói do Sertão, já se começava a criar um mundo diferente daquele em que o tempo livre existia sem mídia. As pessoas ainda conversavam em rodas na calçada, com amigos e vizinhos. Muitas sentavam na varanda à noite para participar da troca de ideias da comunidade, ou pegavam um instrumento e iniciavam uma cantoria que crescia com a chegada de quem quisesse participar.
Havia mais tempo livre do que agora. Para quem conhece um pouco de história, vale notar que, segundo estudiosos, na Idade Média quase 40% do tempo era dedicado ao lazer. Pierre Émile Levasseur chegou a levantar 141 feriados. Antes disso, segundo antropólogos, trabalhava-se bem menos - no máximo 20 horas semanais nas tribos pré-históricas. Os nossos indígenas, aliás, foram considerados "preguiçosos" por não gostarem de fazer muito mais do que o trabalho essencial à sobrevivência. E, com certeza, a maior parte desse tempo livre transcorria sem monetização, com uma linha muito definida entre trabalho e lazer. O tempo de alegria era dedicado a fazer o que se desejava, e divertir-se era gratuito ou quase gratuito.
Quando criança, meu maior divertimento era jogar futebol na rua, pescar no rio Pajeú e ir à praia-andava dezesseis quarteirões para cair no mar. Havia brincadeiras de esconde-esconde, macaca (aquele jogo de riscar o "céu" com giz na calçada), passeios até a Cidade da Criança, um parque público de Fortaleza. Gastávamos pouco para ir ao circo ou ao cinema. E minha grande diversão era ler- a maioria dos livros era da minha casa, emprestada por um vizinho ou retirada da biblioteca, tudo totalmente gratuito. O gasto mesmo era com discos e, vez ou outra, um livro, embora recebesse regularmente exemplares do Círculo do Livro, um clube de compra por assinatura. Eventualmente, também ia aos sebos comprar livros melhores e mais baratos.
Além de mais tempo livre, os passatempos também eram gratuitos, ou quase. Lembro de gastar horas com palavras cruzadas, pingue-pongue, xadrez, damas ou gamão. E contar piadas-piadas "imorais", ainda que quase inocentes se comparadas às de hoje, pois qualquer coisa naquela época já era considerada imoral. O fato é que havia socialização e cultura oral: exercitavam-se as conversas, os jogos de adivinhação, até as pegadinhas mais bobas. Sempre aparecia alguém querendo fazer mágica. Havia um estímulo à aproximação com a família, os amigos e os vizinhos que hoje não existe mais. Na minha rua, uma ruazinha do centro de Fortaleza, a Rocha Lima, todo mundo se conhecia-e conhecia-se a maior parte das pessoas das ruas vizinhas. Hoje não sei nem o nome do vizinho de apartamento.
Havia um mundo diferente, uma atmosfera diferente, antes do lazer monetizado. Era melhor? Penso que era, mas não estou defendendo aqui uma volta ao passado. Aliás, sinto-me extremamente confortável com todas as modernidades, apesar de considerar que deveria existir um limite para a propaganda. O que me incomoda é que não temos mais tempo livre de verdade. Não que me agrade a discussão sobre a escala 6x1- um debate que parece servir apenas para ocupar políticos. O problema é que a monetização, efetivamente, dissolveu as fronteiras entre trabalho e tempo livre, na medida em que este último também passou para a esfera da geração de lucro.
Claro que isso seria inevitável, mas, a meu ver, é indispensável estudar novas formas de socialização, para que, ao mesmo tempo em que nos aproximamos digitalmente, a solidão local não se torne algo tão visível e tão devastador. Até os jovens já não se deslocam mais para namorar! Estamos construindo uma sociedade em que, quanto mais nos conectamos, menos intimidade existe. É preciso ressocializar as pessoas. Sinto que estamos nos tornando cada vez mais um número, uma imagem, do que pessoas reais e comunicativas. Mal comparando: saímos do teatro para o cinema. Este é de massa, mas a verdadeira emoção está- e existe- no palco do teatro, onde o ator comete todos os erros, porém é real, de carne e osso. O nosso lazer está cada vez mais irreal.
(*) é escritor e Doutor em Desenvolvimento Socioambiental pelo NAEA-Núcleo de Altos Estudos da Amazônia.
