Silvio Persivo (*)
A democracia não
sobrevive apenas de narrativas, instituições ou eleições. Ela exige, acima de
tudo, ser vivida, experimentada e sentida por todos - inclusive por aqueles que
perderam a esperança no jogo político.
1. A Palavra e a Prática:
O Abismo que Separa o Discurso da Realidade
A palavra democracia pode
carregar inúmeros significados, mas uma coisa é certa: ela precisa de muito
mais do que ser alegada como escudo ou usada como arma. Ditadores, tiranos e
também pretendentes ao poder sempre recorreram a ela para legitimar seus
projetos de poder. A história está repleta de exemplos- regimes que se diziam
"democráticos" no nome, mas que na prática sufocavam qualquer
dissidência.
A pergunta essencial,
portanto, é: o que faz uma democracia existir de fato?
A resposta vai muito além
do óbvio. Democracia não é apenas um regime político. Não se resume a eleições
periódicas, à liberdade de expressão, ao Estado de Direito ou ao pluralismo
partidário. Tudo isso é necessário, sim- mas está longe de ser suficiente.
A democracia real exige
três camadas que precisam operar de forma simultânea:
|
Camada |
O que significa |
|
Discurso e narrativa |
As ideias, os valores e
a linguagem democrática que circulam na sociedade |
|
Instituições |
Governo, Congresso,
Judiciário, partidos, imprensa livre |
|
Comportamento e
sentimento |
O respeito efetivo às
regras do jogo, a sensação de pertencimento e a confiança de que sua voz
importa |
É exatamente nesta
terceira camada que reside o problema: quando a experiência concreta
das pessoas não corresponde à narrativa oficial, a democracia se esvazia por
dentro.
2. O Que a Democracia
Exige-e o Que a Destrói
"Não é apenas uma
guerra de narrativas, uma polarização ideológica onde é preciso aplastar o
outro de qualquer maneira."
A democracia não pode ser
uma ficção arbitrária a serviço de um lado, usada como propaganda para impor um
ponto de vista e interesses particulares. Quando o debate público se transforma
em um campo de batalha onde o objetivo é aniquilar o adversário- e não
convencê-lo ou conviver com ele-, algo essencial se perde.
O que a democracia exige:
- Respeito ao jogo e às regras,
mesmo quando se perde
- Comportamentos efetivamente democráticos,
não apenas discursos
- Aceitação de que as derrotas não
significam aniquilação de modos de pensar
- Rejeição à desqualificação do outro como
estratégia política
A democracia precisa, em
síntese, de uma visão compartilhada específica: a de criar um mundo
social que permaneça aberto às possibilidades. Ou seja, um ambiente
onde as pessoas sintam que fazem diferença no governo e que, ainda quando não
compreendam plenamente as consequências das decisões, sintam que seus
interesses importam.
3. O Cenário Brasileiro:
Entre a Apatia e o Autoritarismo
Quando essa compreensão
se perde - quando o cidadão começa a perceber que sua opinião e seu protesto
não importam, que aqueles que deveriam representá-lo possuem interesses
conflitantes com os seus-, de nada adianta ter governo, congresso, tribunal,
partido, imprensa, discurso e solenidade.
As instituições
permanecem de pé, mas a alma democrática se esvai.
As pessoas continuam
sendo eleitores, mas olham com desesperança para um mundo que não atende mais
às suas perspectivas. Votam, comentam, xingam, fazem memes. Em alguns momentos
se irritam; em outros, simplesmente desistem de pensar em política. E quando
não há mais política -no sentido de uma criação comum e compartilhada-,
abrem-se dois caminhos, ambos muito ruins:
🔴 Caminho 1 — A Apatia
Manifesta-se em frases
que todos já ouvimos:
- "Não adianta nada."
- "Eles só tratam dos seus
interesses."
- "Nada vai mudar."
A apatia política é o
solo fértil onde a democracia morre em silêncio -não por um golpe estrondoso, mas
pelo simples abandono do cidadão.
🔴 Caminho 2 — O
Autoritarismo
Manifesta-se na busca por
um salvador, uma liderança forte, alguém que "acabe com a
corrupção" ou "ponha fim à esculhambação".
O que levou tantas pessoas para a frente dos quartéis nos últimos anos não
foi a existência da democracia, mas, efetivamente, a sua falta.
Este é o ponto central:
não se resolve esse problema com força, com sentenças pesadas ou com a
tentativa de impor uma única narrativa. A realidade é o que sustenta a
narrativa- e não o contrário.
4. O Fastio do Status Quo
e as Nuvens no Horizonte
Cedo ou tarde -ainda mais
num ambiente econômico deteriorado pela inflação e pelo endividamento -
impõe-se o peso da perda do sentimento e da experiência de participação.
Entre as opções da apatia
e do autoritarismo, será preciso encontrar uma alternativa de democracia que,
infelizmente, não se vê como possível com a manutenção do status quo.
Há um indiscutível fastio do material existente - um cansaço generalizado com o
arranjo político atual-, o que nos leva ao receio de possíveis rupturas, sejam
institucionais ou de atos de insurreição que, até agora, estão restritos a
ações isoladas.
No entanto, há nuvens no
ar que não prenunciam bom tempo.
Não basta que o discurso
seja de defesa da democracia quando as pessoas sentem as ações como impositivas,
desbalanceadas e até mesmo pouco éticas. Não é possível para uma sociedade
conviver democraticamente quando, pelo menos, 40% de sua população- e a
mais escolarizada- se sente fora do jogo político.
É simples: estamos
destruindo nossa unidade quando uma metade da população se sente vigiada e
tratada como inimiga. E tem medo de se manifestar, na medida em que o
debate público não é mais livre - nem mesmo nas redes sociais.
5. O Que a Constituição Diz
e o Que as Pessoas Sentem
A democracia, de
fato, precisa, em primeiro lugar, ser sentida, ser vivida, ser
experimentada. Não pode ser real quando a divergência passa a ser motivo de
expulsão e de punição.
Em suma: não
basta existir a narrativa de democracia.
É preciso que as pessoas
sintam e considerem o que determina a Constituição de 1988 no caput do
art. 5º:
"Todos são iguais
perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito
à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade."
A letra da lei é clara,
mas o que acontece quando a prática cotidiana a contradiz? Quando o cidadão não
se vê refletido nesse princípio de igualdade?
É preciso que exista confiança
na narrativa. Que o comportamento e as ideias
sejam respeitados. Pois, quando isso não acontece, a democracia já não tem mais
como ser protegida-ela se torna apenas uma propaganda que não encontra respaldo
na prática.
6. A Democracia Como Experiência, Não Como
Palavra
A democracia passa a ser
uma palavra que é apenas usada, sem nenhum significado para aqueles que sabem
que - além de estar presente nos discursos - ela não existe na prática.
E, neste momento,
passamos a viver num mundo onde as regras são feitas por quem tem poder e
força. Mas, como se sabe muito bem, esses fatores são mutáveis e
sujeitos a chuvas e trovoadas. O que hoje é imposto pela força, amanhã pode
ruir diante de novas circunstâncias.
O desafio que se coloca-para
o Brasil e para qualquer sociedade que se pretenda democrática- não é meramente
retórico. Não se resolve com mais discursos inflamados ou com a tentativa de
silenciar o outro lado. Resolve-se, isto sim, reconstruindo a
experiência democrática no dia a dia das pessoas: fazendo-as sentir que
pertencem, que são ouvidas, que seus interesses importam e que as regras valem
para todos.
Sem isso, a democracia é
só uma casca oca- e cascas ocas não resistem à primeira tempestade.
(*) é Doutor em
Desenvolvimento Sócio-
