Silvio Persivo
Os pequenos negócios são a espinha dorsal da economia brasileira. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) indicam que microempresas, empresas de pequeno porte e MEIs representam cerca de 98% das empresas ativas no país. Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que essas empresas concentram mais da metade dos empregos formais do setor privado, além de terem papel central na geração de novas vagas nos últimos anos. Apesar dessa relevância econômica e social, é justamente sobre este segmento que recaem os maiores riscos da Reforma Tributária.
Estrutura frágil diante de uma mudança estrutural
A estrutura de gestão das PMEs brasileiras ainda é marcada por informalidade administrativa, controles limitados e decisões tributárias reativas- tomadas, muitas vezes, apenas no momento do recolhimento dos impostos. Em um ambiente já pressionado por margens reduzidas, crédito restrito e alta volatilidade de custos, a reforma surge como um fator adicional de estresse financeiro.
O problema central não é apenas a mudança da lei, mas o nível de preparação das empresas. A reforma expõe uma realidade incômoda: grande parte dos pequenos negócios não sabe com precisão qual é seu lucro real, seu custo efetivo por produto ou serviço e quanto paga de imposto em cada operação.
Este cenário se torna especialmente delicado diante da substituição de tributos cumulativos por um modelo de IVA dual, estruturado em CBS e IBS. O novo sistema exigirá:
- Controle rigoroso de créditos tributários
- Revisão profunda de processos fiscais
- Integração entre áreas que historicamente operam de forma isolada
Para empresas que ainda dependem de planilhas manuais ou informações fragmentadas, o risco vai além de pagar mais imposto. Envolve perda de previsibilidade financeira, redução de competitividade e, em casos extremos, ameaça à própria sobrevivência.
A falsa sensação de proteção
Há, em muitas PMEs, uma subestimação do tamanho da mudança. Parte dos empresários acredita que estará automaticamente protegida pelo Simples Nacional ou por contratos de longo prazo já firmados. Esta percepção é equivocada.
A reforma impacta diretamente:
- Formação de preços
- Margens de lucro
- Cadeia de créditos
- Renegociação contratual
- Estrutura de custos indiretos
Além disso, o novo modelo ampliará significativamente a capacidade de controle do Fisco sobre as operações empresariais. O ambiente fiscal será mais transparente-e também mais exigente.
Neste contexto, o planejamento tributário deixa de ser uma ferramenta pontual e passa a ocupar papel estrutural na estratégia do negócio. Não planejar, a partir de agora, significa assumir riscos diretos sobre o caixa e a continuidade da operação.
O erro estratégico: tratar contabilidade como mera obrigação
Um dos maiores desafios é cultural. Muitas PMEs ainda enxergam a contabilidade como serviço operacional voltado apenas ao cumprimento de obrigações acessórias.
Esta visão limitada torna-se perigosa em um momento em que a legislação exige leitura integrada de tributação, custos, contratos e modelo de negócio. A empresa que não integrar essas dimensões operará no escuro.
Cinco pontos críticos para reduzir riscos
Especialistas apontam cinco áreas de atenção imediata para as PMEs:
1. Avaliar o impacto real da reforma
É imprescindível compreender como a nova lógica tributária afeta produtos, serviços e contratos específicos. Sem essa análise técnica, decisões de preço e negociação serão tomadas com base em suposições.
2. Integrar as áreas da empresa
Tributação não pode mais ser responsabilidade exclusiva da contabilidade. Comercial, financeiro e jurídico precisam atuar de forma coordenada para proteger margens, evitar conflitos contratuais e preservar competitividade.
3. Revisar preços e margens
A mudança no modelo de impostos altera custos indiretos e dinâmica de créditos. Empresas que não recalcularem sua estrutura de preços podem perder faturamento e rentabilidade rapidamente.
4. Buscar assessoria especializada
A complexidade da transição exige apoio técnico qualificado. Parceiros com visão integrada — e não apenas operacional — serão fundamentais para reduzir riscos, retrabalho e exposição fiscal.
5. Entender que o planejamento será contínuo
A reforma não é um evento isolado. Regulamentações e ajustes ocorrerão ao longo dos próximos anos. Estratégias tributárias e financeiras precisarão de revisões periódicas. Há pontos ainda indefinidos que podem gerar mudanças imprevistas.
Quem se antecipa ganha; quem ignora reage sob pressão
As PMEs não podem tratar a Reforma Tributária como tema restrito às grandes corporações. Não há como escapar de seus efeitos.
Empresas organizadas- ou que se organizarem mais rapidamente- terão maior previsibilidade, margem de manobra e capacidade de negociação. Já aquelas que ignorarem a magnitude da transformação provavelmente reagirão sob pressão, sentindo primeiro o impacto no caixa.
A mudança é inevitável e já está em andamento. Para MEIs, micro e pequenas empresas, o custo da inércia pode ser significativamente maior do que o custo da adaptação.
