Silvio Persivo
No berço da democracia
grega, os sofistas compreenderam uma verdade fundamental: a sobrevivência da pólis
dependia da palavra e da discussão. Longe de oferecerem dogmas prontos ou
verdades reveladas, eles entregaram aos cidadãos uma ferramenta profundamente
libertadora: a retórica. Ao ensinar a arte de argumentar, defender e
refutar, os sofistas democratizaram o poder, permitindo que a ordem social
deixasse de ser um decreto divino para se tornar um objeto de constante debate
e reescrita. A palavra, a partir dali, abandonou o papel de espelho passivo da
realidade para se converter na própria forja onde se molda a geopolítica e a
vida pública.
Grandes pensadores e
historiadores da filosofia já demonstraram que os sofistas foram os arquitetos
de uma formação voltada para a virtude prática. No entanto, foi G. W. F.
Hegel quem os apontou como os grandes responsáveis pelo despertar da
subjetividade livre. Para ele, foi através do movimento sofístico que o
espírito humano reconheceu a si mesmo como medida e motor da realidade,
rompendo com a submissão cega aos costumes tradicionais.
Por outro lado, Karl
Popper identificou nessa mesma atitude as sementes do falibilismo
democrático. Popper enxergava na rejeição sofística aos dogmas absolutos a base
indispensável para uma comunidade livre, onde nenhuma autoridade detém o
monopólio da verdade e todas as certezas estão sujeitas ao escrutínio, à
crítica e à revisão pública.
A importância dessa
constatação reside em um fato crucial: sem um critério divino ou natural para
arbitrar nossas disputas, cabe a nós-na arena escorregadia e dúbia da linguagem-
construir os consensos provisórios que sustentam a convivência. O relativismo
sofístico é, portanto, a recusa da tirania do absoluto em favor da negociação
democrática e da busca por uma coexistência pacífica.
A Educação como Arma de
Emancipação
Assim, a promessa
sofística de ensinar a areté — a excelência cívica combinada à destreza
argumentativa — desferiu um golpe mortal no domínio aristocrático. A educação
transformou-se em um instrumento formidável de emancipação, baseado na premissa
de que qualquer cidadão, munido da arte da palavra, é capaz de intervir nos
destinos da sua comunidade e alterar o curso da história.
Sob essa ótica, o mundo
humano é uma construção eminentemente humana:
- As instituições;
- A moralidade;
- A própria ideia de justiça.
Tudo isso nada mais é do
que um conjunto de convenções tecidas no calor do debate público. O mundo
social é uma obra de arte coletiva, uma invenção permanente que exige
manutenção contínua.
O sentido último dessa
visão é o de que a verdade não é uma relíquia perene, embalsamada e guardada no
silêncio dos templos. Ela é como um rio vivo em constante transformação; ou,
talvez, um feixe de forças em perpétua mutação de sua resultante. Se existe
alguma concretude, é a de que a verdade se modifica, se desloca, se expande, se
retrai e renasce do atrito dialógico entre os atores sociais. Aqui,
estilhaça-se sem pena nem saudade o ideal platônico de uma certeza imóvel, tão
distante da complexidade das sociedades reais.
Contemporâneos do
Discurso
Nesse aspecto, os
sofistas são nossos estritos contemporâneos. Eles entenderam que a verdade
resulta da dança e do compasso da vida política. O dissenso e a articulação de
perspectivas divergentes não são ameaças à verdade; são, na realidade, sua
única possibilidade de existir. Esta é a base que torna a liberdade de
expressão indispensável.
Ao circular pelo tecido
social, o discurso recorta a realidade, costura novos sentidos e cria novos
mundos por onde passa. A verdade deixa de ser esculpida na pedra e passa a ser
construída em qualquer espaço: na terra, no mar, no ar ou nas mídias sociais. A
política torna-se um espaço de reinvenção contínua — onde, paradoxalmente, até
a mentira tenta se impor como verdade ao tentar restringir a palavra alheia.
Para os sofistas, a palavra é a própria respiração da democracia.
Só há democracia liberal
e pluralismo- mesmo diante da inevitável falibilidade das instituições-quando a
sociedade reconhece a necessidade do atrito de posições. A tradição sofística
se ergue:
1. Cada
vez que um cidadão levanta a voz contra a tirania do pensamento único;
2. Cada
vez que uma sociedade reescreve suas próprias leis;
3. Cada
vez que um argumento triunfa pela luz da razão pública.
Por mais escuros que
pareçam os caminhos e por mais negros que se desenhem os horizontes, os
sofistas nos deixam um facho de luz. Enquanto houver alguém capaz de lembrar
que a liberdade humana é uma construção coletiva-que não repousa em certezas
absolutas nem nas mãos de "iluminados", independentemente dos altos
cargos que ocupem-, o tempo e a razão dos discursos nos guiarão. Apesar dos
altos custos, eles sempre nos conduzirão de volta a uma verdade democrática,
por mais efêmera que ela possa ser.
Ilustração: Imagem criada
pelo Google Gemini.
