Silvio Persivo (*)
O endividamento das famílias brasileiras nunca foi tão alto. E, ao contrário do que muitos pensam, a crise dos devedores não atinge apenas quem está com o nome sujo. Ela respinga em toda a economia - inclusive em quem paga as contas em dia.
Os números são alarmantes. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), revelou que, em junho, 81,6% das famílias brasileiras estão endividadas. Isto representa quase 15 milhões de famílias-o sexto mês consecutivo de recordes na série histórica da pesquisa.
O quadro é confirmado por outro levantamento, o Mapa da Inadimplência da Serasa Experian, que em março de 2026 apontou 81,7 milhões de brasileiros negativados. Um crescimento de 38% no total de devedores na última década. Para fechar o cenário com chave de ouro preocupante, o Banco Central registrou a maior taxa média de inadimplência desde 2011: 4,7% nas operações de crédito com recursos livres.
Em resumo: o Brasil nunca teve tantos devedores.
É comum que quem está com as contas em dia olhe para esses números com certo distanciamento. Ledo engano. O sistema financeiro é uma engrenagem interligada, e a inadimplência alheia produz efeitos concretos sobre toda a economia. O mecanismo é simples: pela regra de provisionamento bancário, as instituições financeiras são obrigadas a reservar recursos em um fundo para cobrir os prejuízos de quem não paga. Com menos dinheiro disponível para circular e emprestar, o crédito fica mais escasso. E, como manda a lei da oferta e da procura, o preço do dinheiro sobe. O resultado? Juros mais altos, que encarecem as vendas a prazo, inibem o consumo, desaceleram o comércio, freiam a produção, cortam empregos e reduzem o poder de compra da população - alimentando um ciclo vicioso que deprime o próprio PIB. O exemplo mais visível dessa distorção está no cartão de crédito, cujas taxas médias anuais ultrapassam os 400%, um patamar que beira o absurdo em qualquer economia minimamente funcional.
Naturalmente, quem sente o golpe mais forte são as famílias de menor renda. Para muitas delas, o cartão de crédito deixou de ser um meio de pagamento para se tornar um complemento de salário- uma ferramenta de sobrevivência. Não se trata de consumo supérfluo, mas de necessidade básica. Nem mesmo os poupadores saem ilesos. Embora a renda fixa se torne mais atrativa em cenários de juros elevados, o ganho é lento e incerto. Enquanto isto, o crescimento real do patrimônio- aquele que vem com uma economia aquecida, geração de empregos e valorização de ativos de renda variável- permanece travado. Diante da crise, proliferam especialistas com receitas milagrosas. Mas a realidade é mais dura: as opções efetivas se resumem a apertar os cintos, trocar dívidas caras por mais baratas e manter um controle rigoroso das finanças.
O Programa Desenrola, lançado pelo governo, representa uma ferramenta válida para quem consegue acessá-lo. Permite renegociar débitos e, ao menos, melhorar temporariamente a situação. No entanto, sua própria reedição é sintomática: o programa ataca os sintomas, não as causas. O problema de fundo permanece intocado - e está na gestão do dinheiro, tanto no âmbito das políticas públicas quanto no comportamento individual. Controlar receitas e despesas, gastar com critério, gerar superávits e construir reservas exige uma mudança estrutural de mentalidade, que não se resolve com programas pontuais de renegociação. Os recordes sucessivos de endividamento e inadimplência são o termômetro de uma economia desequilibrada e de uma cultura financeira frágil. Sem um controle efetivo de seus recursos -das contas públicas ao orçamento doméstico-, nem o país nem as famílias conseguirão sair do fundo do poço. A solução não virá de um único programa, de uma canetada ou de um parcelamento milagroso. Virá de educação financeira real, planejamento consistente e, acima de tudo, da consciência de que o endividamento de uns é, sim, problema de todos.
(*) É Doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia da UFPª.
