A DEFLAÇÃO COM DÚZIA DE DEZ
Silvio Persivo (*)
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-que os íntimos chamam de IBGE e que os desconfiados chamam de "especialista em cortina de fumaça" - resolveu, no mês de agosto, dar uma dessas notícias que fazem o brasileiro rir de nervoso: houve deflação. Isto mesmo, os preços caíram 0,40%. A notícia foi recebida com o mesmo entusiasmo de quem ganha um convite para o próprio velório.
O Instituto, sempre didático, explicou que a queda se deveu ao recuo na conta de luz, efeito do tal bônus de Itaipu- coisa que ninguém sabe muito bem o que é, onde mora, nem por que raios, se existe bônus, se a conta de luz deste mês continuou chegando mais gorda que boi de leilão. Mas os estatísticos, criaturas de fé inabalável em suas planilhas, insistem: caiu. E ponto.
Ora, para o cidadão que vai ao mercado-não à sala de reuniões do Instituto- a única deflação visível é a do próprio salário, que encolhe todo mês sem precisar de nota técnica explicando por quê. Alimentação sobe, comida fora de casa sobe, carne sobe, combustível sobe e, segundo eles mesmos, no acumulado de doze meses a inflação já está em 4,24%. Ou seja: continua tudo mais caro, só que agora com um atestado oficial de que, tecnicamente, baixou.
Mas há um fenômeno que os índices do IBGE, com toda sua sofisticação matemática, jamais vão capturar: a reduflação, ou, em bom inglês pra impressionar a sogra, shrinkflation. É a arte sutil- e covarde- de diminuir o produto mantendo o preço, a embalagem e a cara de pau.
O chocolate é o monumento nacional desta engenharia. Era de 200g, virou 170g, depois 150g, depois 135g, depois 90g, e hoje há tablete de 75g que mais parece amostra de dentista. A caixa de bombom, que era generosa com seus 400g, hoje mal chega a 250g- parece que o Cupido também entrou em regime de austeridade.
O sabão em pó, esse sim, é caso de polícia: a caixa de 1kg virou 800g, a de 2kg virou 1,6kg, e o preço, este não encolheu-cresceu, o cara de pau. As batatinhas e salgadinhos, aliás, são craques nisto: o pacote continua do mesmo tamanho por fora, mas por dentro é a festa do ar comprimido. Reduziram entre 9% e 15% o conteúdo, mas o vento lá dentro, este não cobram. O ruim é que ninguém consegue comer vento.
O biscoito recheado também entrou na dança: de 200g caiu para 160g, depois 140g, depois 120g- e nas linhas infantis, às vezes menos ainda, coitada da criançada que nem sabe que está sendo lesada desde o berço. Óleo, macarrão, manteiga, iogurte-todos na fila da murcha. E o campeão absoluto, o símbolo maior dessa republiqueta do encolhimento: a dúzia de ovos que virou dez. Uma dúzia matemática nova, brasileira, invento nosso- a "dúzia camarada".
E tem mais: a reduflação evoluiu para uma vertente ainda mais traiçoeira- a troca de ingrediente nobre por sucedâneo mais bаrato. O leite condensado hoje disputa espaço de gôndola com a "mistura láctea condensada". O creme de leite virou "soro de leite" com ares de creme de leite. E o leite em pó, este ganhou um primo pobre chamado "composto lácteo", que é leite como novela mexicana é documentário. E isto também se sucede na comida fora de casa onde a o bife que vem diminui ou vem outra espécie de carne ou desaparece algum ingrediente mais caro.
A lei brasileira, generosa como sempre, até exige que a mudança de peso seja informada no painel frontal da embalagem- por seis meses. Só que, nem todos cumprem, a informação desaparece como político em campanha depois da eleição, e a embalagem volta a mentir sossegadamente, com letrinhas que só se leem com lupa e paciência de santo.
Por isto, a sensação de que tudo está mais caro é muito mais confiável do que qualquer índice publicado com pompa e circunstância pelo IBGE. Porque, no fim das contas, o brasileiro não precisa de estatística pra saber que a dúzia agora tem dez ovos, o chocolate tem cara de hóstia e o dinheiro, este sim, definitivamente deflacionou e está sendo preciso, cada vez mais, usar o crédito para chegar no fim do mês. E o salário daqui a pouco vai precisar de microscópio.
(*) É escritor e economista.
