
Silvio Persivo (*)
No primeiro turno, as pesquisas davam Lula da Silva na frente. Minha percepção, porém, sempre foi a de que estavam erradas: faz tempo que aposto que qualquer um venceria a eleição contra ele. Por quê? A resposta é simples -fadiga de material.
E a minha leitura sempre foi econômica. O desemprego no nível mais baixo é maquiagem: o Bolsa Família é quem sustenta grande parte das famílias brasileiras. A inflação em queda é malabarismo do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-, pois toda vez que a mãe de família volta ao supermercado compra cada vez menos com os mesmos trocados. Some-se a isso o endividamento de, no mínimo, três quartos das famílias brasileiras, o sufoco das micro e pequenas empresas e a desaceleração visível da economia.
O retrato real é outro: a manutenção, por anos seguidos, da avaliação de "ruim" e "péssimo" do atual presidente. Quem governa com desaprovação prolongada é tiro e queda: não se reelege. E Lula tem rejeição muito maior do que a de Flávio Bolsonaro-só que, muitas vezes, as pesquisas não dizem isso. Quá, quá! Instituto de pesquisa e imprensa vivem de quem paga.
Pesquisa é uma indicação, um retrato do momento; o importante é a leitura correta. Quando se afirma, como agora, que Flávio Bolsonaro tem 50 pontos contra 49, com dois pontos de variação, a imprensa inteira corre para dizer que a eleição está empatada. Uma leitura real, com os votos cristalizados e o retrospecto do primeiro turno, aponta o contrário: é mais provável que esteja 51 a 48 -ou mesmo 53 a 47. Basta verificar como quase toda a chamada grande imprensa faz uma leitura distorcida, sempre a favor do incumbente, o dono das verbas. E tudo indica que a diferença será ainda maior.
A questão é que Lula da Silva está no poder desde 2003, sempre prometendo as mesmas coisas. Quem esperava uma melhora de vida já não acredita que ele vá entregar nada. Para piorar, o Supremo Tribunal Federal – STF-, ao se confundir com o atual governo, herdou a rejeição dele e virou mote de campanha com a famosa frase: "Lula é Moraes e Moraes é Lula".
Nem mesmo a distribuição desenfreada (e imoral) de benesses neste segundo turno- com a aprovação em tempo recorde do fim da escala 6x1- adiantou. Nos Estados Unidos se diz que "é a economia, idiota!". Nós somos mais suaves: é a carestia, my baby!!!
Lula da Silva perdeu para si mesmo. Esqueceu, faz tempo, que se governa para quem se representa — assim como esqueceu, por quatro anos, de dar a reposição do Bolsa Família. Mas esqueceu, principalmente, de governar para o povo que dizia querer tirar da miséria.
As pesquisas de hoje apontam uma eleição apertada, mas certamente será menos apertada do que se espera: elas sempre erram contra quem vai ganhar. É o fim de um ciclo. Que o novo presidente representa uma mudança, já se sabe; o que se espera é que essa mudança represente, de fato, um novo ciclo de prosperidade. O Brasil está cansado de voo de galinha. Precisamos crescer para ter futuro.
(*) é economista e escritor.
