Silvio Persivo
Apesar dos esforços oficiais e do volume expressivo de recursos destinados à comunicação institucional, os indicadores mais recentes revelam um quadro persistente de fragilidade na economia brasileira, especialmente no que diz respeito às finanças das famílias. A realidade concreta tem se imposto sobre o discurso, evidenciando que os desafios estruturais permanecem longe de uma solução consistente. Não se trata apenas de comunicação, mas de problemas estruturais que não são enfrentados pelo atual governo como a questão dos gastos públicos e da inflação.
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, por meio da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), mostram que, em março de 2026, o percentual de famílias endividadas atingiu 80,4%- o maior nível da série histórica. Além disto, o comprometimento médio da renda com dívidas chegou a 29,6%, indicando que quase um terço dos rendimentos familiares está direcionado ao pagamento de obrigações financeiras.
Este quadro é corroborado por informações do Banco Central do Brasil, que apontam que, em janeiro de 2026, a dívida das famílias correspondia a 49,7% da renda acumulada - patamar muito próximo do recorde histórico de 49,9%, registrado em julho de 2022, período fortemente impactado pelos efeitos da pandemia da Covid-19. A persistência desses níveis elevados evidencia que o problema não é conjuntural, mas estrutural. Embora haja um movimento de redução da taxa básica de juros (Selic), seus efeitos sobre o orçamento das famílias tendem a ser limitados no curto prazo. Isto se deve, em grande medida, ao elevado custo do crédito na ponta, que continua onerando consumidores e dificultando a recomposição financeira. Na prática, muitas famílias permanecem dependentes de empréstimos para cobrir despesas correntes, perpetuando um ciclo de endividamento que se retroalimenta.
Este comportamento revela um descompasso entre a teoria e a prática da educação financeira. Ainda que haja consciência generalizada sobre a importância de controlar gastos, priorizar dívidas mais caras e renegociar compromissos, a pressão do dia a dia leva ao uso recorrente do crédito como solução imediata. O resultado é a ausência de planejamento de longo prazo e o agravamento do desequilíbrio financeiro, mesmo em um cenário de juros em trajetória de queda. O que deveria ser um processo básico-como o controle sistemático de receitas e despesas, a definição de metas e a eliminação de gastos supérfluos-acaba não se concretizando para grande parte da população. Sem esses fundamentos, torna-se praticamente inviável reabrir espaço no orçamento e retomar o equilíbrio financeiro.
A situação se torna ainda mais complexa quando se observa o contexto fiscal. O aumento dos gastos públicos, frequentemente superior à arrecadação, tem levado à adoção de medidas paliativas, como a ampliação de programas de transferência de renda. Estudo da DataBrasil aponta que, ao final de 2025, cerca de 894,9 mil famílias adicionais passaram a receber ao menos um salário mínimo mensal em benefícios sociais. Embora tais iniciativas tenham relevância social imediata, sua expansão sem o devido enfrentamento das causas estruturais tende a gerar efeitos colaterais, como o aumento da pressão fiscal e a manutenção de um ambiente econômico instável. Em outras palavras, trata-se de um esforço que mitiga sintomas, mas não resolve o problema de origem.
O cenário, portanto, exige mais do que ações pontuais. Requer disciplina fiscal, melhoria no ambiente de crédito, estímulo à renda sustentável e, sobretudo, uma agenda consistente de educação financeira. Sem esses pilares, o país continuará convivendo com níveis elevados de endividamento, comprometendo não apenas o bem-estar das famílias, mas também o potencial de crescimento da economia como um todo.
